PEDRO SILVA REIS, O DOURO A SEUS PÉS

Muito recentemente Pedro Silva Reis celebrou 40 anos de carreira no mundo dos vinhos e 20 como presidente da Real Companhia Velha, produtora de vinhos do Porto e do Douro e a mais antiga empresa de Portugal, com quase 266 anos de atividade ininterrupta. Foi fundada a 10 de setembro de 1756 por Alvará Régio de D. José I, Rei de Portugal, sob os auspícios do seu Primeiro-Ministro, Sebastião José de Carvalho e Mello, mais tarde Conde de Oeiras (1759) e posteriormente Marquês de Pombal (1769). Para comemoração dessa efeméride realizou-se um jantar na Quinta de Cidrô, umas das quintas da Companhia. É desse jantar e dos vinhos que foram provados algumas fotos que ilustram este artigo.

A família Silva Reis é acionista com o controlo da Real Companhia Velha, tendo a carreira de Pedro Silva Reis sido inteiramente dedicada ao negócio familiar. Completou o liceu em Portugal e frequentou um curso de Enologia na Universidade de Bordéus. Iniciou a sua atividade na empresa em 1982, tendo exercido funções de treino e aprendizagem nas várias áreas chave do negócio: na produção, onde se iniciou como provador de Vinho do Porto – função que mantém até aos dias de hoje; nas vendas, com foco no mercado nacional, mas também nas relações comerciais com a Inglaterra, Brasil e Alemanha; no marketing e nas finanças.

Em 1986 ficou responsável por uma nova Área de negócios, a importação de bebidas espirituosas e rapidamente tornou a empresa num dos líderes da distribuição de whisky escocês em Portugal e nunca mais parou usando a sua enoergia, inteligência e faro para o negócio.

Em 1996 iniciou uma escalada para o caminho de excelência que os vinhos da RCV haveriam de atingir pouco depois. Ficou famoso o Quinta de Cidrô Chardonnay 1997 (já com Jorge Moreira a trabalhar na empresa, como assistente do enólogo californiano Jerry Luper, o criador do vinho). Pouco depois, apoiado por uma jovem equipa de agrónomos – Rui Soares, Álvaro Martinho Lopes e Sérgio Soares –, liderada por Luís Carvalho (os três primeiros ainda se mantêm na empresa) é criado o primeiro vinho tinto de quinta, com origem na Quinta do Aciprestes.

Nos anos seguintes vai ganhando maiores responsabilidades dentro da empresa, nunca parando de inovar e em 2002, com 40 anos foi nomeado presidente da Real Companhia Velha, sucedendo a seu pai, Manuel da Silva Reis, que havia desempenhado o cargo com grande carisma e dedicação durante 40 anos.

A vontade de inovar não abrandou e desafiou a equipa técnica a estudar e a apostar na recuperação de castas autóctones em extinção. Entre as cerca de 30, destaque para Alvarelhão Branco, Alvaraça, Branco Gouvães (ou Touriga Branca), Esgana Cão, Donzelinho Branco, Moscatel Ottonel e Samarrinho, nas brancas, e Bastardo, Donzelinho Tinto, Malvasia Preta, Preto Martinho, Cornifesto, Rufete, Tinta da Barca e Tinta Francisca, nas tintas. Ainda nesse primeiro ano de presidência da RCV, retomou a produção do ‘Grandjó Late Harvest’, uma tradição iniciada em 1905 e interrompida nos anos 60.

Seguiu-se o lançamento de Vinhos do Porto raros, como em 2006 para a celebração dos 250 anos da Companhia e nos anos seguintes outros, como o Carvalhas Mémories Very Old Tawny e a Coleção de Very Very Old Tawny (1900, 1908 e 1927).

Jorge Moreira regressa à empresa por onde havia passado anos antes e desafia PSR a lançar uma colecção de vinhos topo de gama com a se signação de Quinta das Carvalhas, a mais emblemática propriedade da Companhia. Assim nasceu essa gama, lançada em 2012 e que conta actualmente com quatro referências: branco, Tinta Francisca, Touriga Nacional e o Vinhas Velhas tinto.

É também nesse ano que apostou na criação de uma linha experimental de vinhos chamada Séries que reflete o trabalho conjunto das equipas de viticultura e enologia na salvaguarda de castas antigas e na utilização de técnicas também já em desuso, salvando-se assim muito património quase perdido pela voragem da modernidade.. Iniciada com um Rufete, conta uma década depois com um histórico de 13 referências e mais de 30 vinhos: o espumante Chardonnay & Pinot Noir Bruto rosé; o Arinto, Branco Gouvães, Donzelinho Branco, Gouveio, Moscatel Ottonel e Samarrinho, nos brancos; e o Bastardo, Cornifesto, Malvasia Preta, Rufete, Tinta Amarela e Tinto Cão, nos tintos.

Nem só no vinho se centra o foco de PSR e em 2018 liderou a criação do centro de visitas 17.56 Museu & Enoteca da Real Companhia Velha. Instalado no Cais de Gaia, e que integra o Museu da 1.ª Demarcação e a Enoteca 17.56.

Os últimos anos cinco anos foram marcados por um projeto de reconversão de vinhas, num total de 138 hectares dispersos pelas cinco quintas da Real Companhia Velha (Aciprestes, Carvalhas, Cidrô, Granja e Síbio) e pela aquisição de várias parcelas de Vinhas Velhas, num total de 23,5 hectares. Isto a par da aposta em práticas de agricultura e negócio sustentáveis, a nível social, económico e ambiental.

PEDRO SILVA REIS ALÉM DA REAL COMPANHIA VELHA

Pedro Silva Reis é membro ativo do “associativismo” em Portugal. No início dos anos 80, com 24 anos, foi um dos fundadores da Associação Nacional dos Jovens Empresários (ANJE) e, em 1989, foi convidado pelo então presidente da Associação Industrial Portuense, Ludgero Marques, a integrar a Direcção daquela associação, tendo sido o mais jovem empresário a incorporar a direção desta associação nos seus 150 anos de existência. Em 1990 foi nomeado para a direção do CESAI, na época o maior instituto de formação informática do país. Em 1992 foi nomeado tesoureiro da Exponor – Parque de Exposições e Feiras do Porto.

No seu percurso pela Associação Industrial Portuense (AIP), a partir de 1992, liderou diversas Missões Empresariais à Europa do Leste e participou activamente no desenvolvimento de programas específicos para ajudar as pequenas e médias empresas a abordarem esses novos mercados. Em 1994 tornou-se responsável pela AIP Internacional em assuntos para a Ásia, tendo coordenado o escritório de representação da Associação em Macau e Taiwan, assim como coordenou projetos específicos na China. Liderou também diversas Missões Empresariais a Hong Kong, Tailândia, Filipinas e Coreia do Sul.

Pelas relações que mantém há vários anos com o país, em 2004 foi nomeado Cônsul Honorário da República da Polónia no Porto, tendo o consulado sede nas instalações da empresa que dirige.

Em 2015, foi membro fundador da ProDouro – Associação dos Viticultores Profissionais do Douro tendo cumprido vários mandatos na direção. Integrou também, em diversos mandatos, o Conselho Interprofissional do IVDP – Instituto dos Vinhos do Douro e Porto.


Real Companhia Velha mostrou quatro novos Carvalhas

Um vinho branco (de 2016), os monocastas de Tinta Francisca (de 2014) e de Touriga Nacional (de 2015) e o tinto de Vinhas Velhas (de 2015), todos eles sob a marca Carvalhas, o topo de gama da empresa, foram os mais recentes lançamentos da Real Companhia Velha (RCV).

Para a apresentação foi feita, nas instalações da empresa em Gaia, uma harmonização com pratos da autoria do chefe Vasco Coelho Santos, todos eles inspirados num passeio pela quinta.

Já o ano passado, a propósito do lançamento do Carvalhas Touriga Nacional, um monocasta oriundo de uma parcela de vinha com quarenta anos, a RCV estreou o conceito ‘C4 – Carvalhas Convida Chefes a Criar’. O objectivo? Convidar chefs a embrenharem-se no mundo rural e vínico da Quinta das Carvalhas, ao ponto de desenharem pratos com ingredientes, cheiros e sabores daquele que é um terroir tão singular, mas ao mesmo tempo tão elucidativo do que é o Douro Vinhateiro. Depois de Ljubomir Stanisic estrear esta acção há um ano, em Lisboa, foi agora a vez de Vasco Coelho Santos – chefe e proprietário do Euskalduna Studio, no Porto – mostrar, à mesa, o potencial do terroir da Quinta das Carvalhas. Um almoço muito divertido, que juntou vinhos de excelência a pratos com nomes tão engraçados, profundamente durienses e  intimamente ligados ao trabalho nas vinhas como “Bucha Matinal” , seguindo-se o ‘Piquenique nas Carvalhas’ harmonizado com ‘Carvalhas branco 2012’, ‘O Jardim do Álvaro’ (Álvaro Martinho Lopes), o responsável pela viticultura da Quinta das Carvalhas e músico de valor), em maridagem com  o ‘Carvalhas Tinta Francisca’ de 2012.

Os ‘Cítricos’ e o ‘Complexo & Original’ são servidos com o Carvalhas Touriga Nacional 2015 e o Carvalhas Vinhas Velhas 2010, respectivamente. Por fim, o chefe Vasco Coelho Santos idealizou uma sobremesa a imitar xisto, a pedra predominante nas Carvalhas e em todo o Douro Vinhateiro que foi servida com Quinta das Carvalhas Vintage 2015. Felizes os que puderam estar naquele animado almoço, pois tiveram oportunidade de provar, a fechar, um Porto de 1908.

Sobre os vinhos provados

Carvalhas branco 2016, 13% de álcool, 28 euros. Foram feitas 6000 garrafas.

Vinho feito com uvas das castas Viosinho e Gouveio colhidas em parcelas escolhidas na parte mais alta da quinta, teve a primeira edição em 2010. O vinho depois de passagem pela prensa pneumática é fermentado em cubas de inox e o estágio de oito meses em barricas novas de carvalho francês sobre borras finas, mostrando a estrutura e a graça do Viosinho e a frescura, a elegância e a mineralidade do Gouveio. Aroma intenso a flor de laranjeira com, notas de alperce e o toque da madeira. Na boca a fruta continua a sobressair. É um branco com corpo capaz de fazer boa companhia a pratos de bacalhau, marisco e queijos fortes.

Carvalhas Tinta Francisca tinto 2014, 13% de álcool, 38 euros. Foram feitas 2600 garrafas

Embora não ande nas bocas do mundo como a Touriga Nacional ou a Tnta Roriz, a Tinta Francisca é uma casta muito presente nas Vinhas Velhas do Douro, à qual, após aprofundado estudo, a Real Companhia Velha elaborou um trabalho de recuperação do seu cultivo de forma a produzir um vinho com um estilo diferente do habitual, aromaticamente muito atraente, de estrutura mediana, perfil elegante, mas de grande intensidade. A ironia é podermos descobrir um novo Douro através de uma casta muito antiga. Fermentou em pequenas cubas de inox e estagiou em barricas usadas de carvalho francês durante 12 meses. É um vinho muito aromático com notas de fruta. Na boca é complexo, fresco e cheio, com um final longo e fresco. Liga bem com assados e estufados de carne bem temperados.

Carvalhas Touriga Nacional 2015, 14,5% de álcool, 38 euros. Foram feitas 3300 garrafas

A rainha Touriga Nacional, que muitos consideram a melhor casta portuguesa, proveniente de uma parcela da Vinha da Cascalheira, numa parte da Quinta das Carvalhas localizada junto ao Rio Torto, foi vinificada em pequenas cubas de inox, com posterior estágio durante 12 meses em barricas usadas de carvalho francês. É um touriga típico do Douro, com notas de bergamota, frutos vermelhos e nuances de violeta. É potente, com taninos redondos, boa acidez e um final longo. Casa-se bem com assados e  caça.

Carvalhas Vinhas Velhas tinto 2015, 14% de álcool, 50 euros. Foram feitas 10 000 garrafas.

O Carvalhas Vinhas Velhas tinto é o topo de gama desta quinta da RCV. Um tinto poderoso e rico proveniente de mais de vinte castas autóctones diferentes, escolhidas cacho a cacho por um pequeno grupo que integra os próprios directores de enologia, Jorge Moreira e de viticultura, Álvaro Martinho Lopes. Depois da pisa a pé em lagares de granito o vinho estagia em barricas de carvalho francês (50% das quais são novas) durante 18 meses e sob controlo de temperatura. Aroma rico em notas de frutos vermelhos e pretos, especiarias e um leve toque de baunilha proveniente da madeira. Na boca é potente e elegante, bons taninos e final de boca longo. Alinha lindamente com pratos muito fortes como faisão ou javali.